segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O QUEIJO DA RATOEIRA


 

Em tempos de juros baixos aquele que construiu suas reservas financeiras procura melhores investimentos para monetizar seu capital já que taxas entre 2% ou 3% ao ano dos investimentos em renda fixa não o satisfazem, pois devido a inflação a taxa efetiva desses investimentos tende a ser zero ou até negativa.  O que fazer então?  Renda variável? Risco? O indicado para quem apresenta esse perfil seria investir uma parte de no máximo 30% das reservas financeiras líquidas e buscar investimentos rentáveis de menor risco e maior previsão de receita/retorno.

Por outro lado, em tempos de crise, quando os negócios não vão bem das pernas, empreendedores buscam financiadores para zerar suas dívidas e ao tentar crédito junto aos bancos percebem que os juros estão baixos para quem aplica, mas, nem tanto para quem toma um empréstimo; a essa diferença chamamos de spread; e é responsável pelos lucros apurados pelos bancos. Além das garantias solicitadas pelos agentes e os valores liberados quase sempre abaixo do pretendido.

Se um pretende investir e o outro pretende tomar emprestado, que tal colocarmos os dois em uma mesma mesa em uma conversa de negócios?

Parece fácil, mas não é. Pois a solução pode ser o início de outro problema. Quanto maior o risco, maior deverá ser o retorno.  Deve haver um estudo para avaliação desse risco, capacidade de pagamento, garantias... Talvez uma sociedade... Mas, quem tem sócio tem patrão.  Que outra saída?

Qual o empreendedor que diante das dívidas não pensou em ter um sócio?  Aquela pessoa que entrará com dinheiro, dividirá tarefas e responsabilidades repensando as questões do dia a dia e tirando-lhe um peso das costas.

Na maior parte dos casos a empresa não irá adiante com os dois no comando. A divisão de tarefas e responsabilidades a princípio pode funcionar, mas logo que um dos dois perceba que está se doando mais que o outro a insatisfação dá lugar a omissão e o barco começa a fazer água.

Outro fator que pesa negativamente é que se antes como sócio único com retiradas a lá vontê a equação não zerava, agora terá que dividir por dois e prestar contas de tudo. Eita... deu ruim!

A literatura administrativa para fusões e aquisições torna imperativo que se faça estudos como análise de viabilidade da empresa e estudo de avaliação (valuation), onde o  método mais utilizado no Brasil é o fluxo de caixa descontado. Nesses estudos são analisados contas à pagar, créditos a receber, movimentações bancárias, demanda real, endividamentos, máquinas e equipamentos, capacidade instalada, percentual de débitos sobre a receita, Ebitda (lucro antes dos empréstimos e impostos), DRE mensais dos últimos anos, carteira de clientes, estoques, projeções futuras, débitos fiscais e trabalhistas...

Já deu pra perceber que não é tarefa fácil. É trabalho para profissionais.

Lembro de um caso no qual trabalhei onde foram apresentadas dívidas totais da empresa em torno de R$150.000,00 e no transcorrer do estudo concluímos que eram de R$380.000,00.  Que a margem de lucro não se mostrou real e que a fábrica para funcionar de acordo com o que foi combinado precisaria de pelo menos R$800.000,00 de investimentos; e que o antigo sócio precisaria de retiradas mensais expressivas para suprir seus gastos pessoais. Gastos esses que levaram a empresa aquela situação.

Aparências não são fatos. É como o queijo na ratoeira. Deve-se buscar o equilíbrio sensato entre a vontade de ganhar e o medo de perder.

A boa consultoria é aquela que se paga pelo resultado do trabalho realizado. É tarefa para profissionais. Cuidado com as críticas construtivas de quem nunca construiu nada.

Bons negócios e boa sorte.

Celso Cunha

 

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